Reconhecimento

 

Nós, criadores e mentes criativas, muitas vezes não enxergamos a realidade do que produzimos. A sensibilidade que é expressa em nosso trabalho é algo intrínseco e natural. Nossa personalidade se expressa dessa forma com espontaneidade e sinceridade, portanto não temos a dimensão dessas características que nos acompanham e se mostram a cada momento, a cada dia, a cada gesto. 

 

Em uma passagem no livro de Marcel Proust em 'Em busca do tempo perdido' que ele escreveu uma percepção, um sentimento, que me foi familiar. Ele diz:

 

"Tal sentimento íntimo, imediato, que eu possuía do nada do meu pensamento prevalecia contra todas as palavras elogiosas que me dirigiam, como os remorsos na consciência de um malvado cujas boas ações todos louvam."

 

Nossa mente persiste em nos manter distraídos com pensamentos que não nos pertencem, não nos conferem. Medos, angústias e traumas são fantasmas que nos acompanham em uma luta incessante para que a inação e toda sua carga abismática seja instalada. Se não tivermos a sagacidade da vigia constante, seremos consumidos por sentimentos autodepreciativos.

 

Depois de muitos anos exercitando nossas expressões artísticas e profissionais, se hoje alguém nos perguntasse quais são nossas referências, responderíamos com assertividade que nós somos nossas próprias referências. Não há outra. Por mais que outros trabalhos e pessoas nos inspirem, eles perpassam por nós, e a partir desse fluxo nossas expressões são construídas e materializadas. Depende da nossa capacidade de saber olhar, enxergar, intelectualizar e interpretar com sensibilidade e poesia. Cada ser é único. Essa parte do livro que mencionei acima contribuiu para essa reflexão tão importante no processo de construção e autorreconhecimento.

 

 

Peço licença para continuar com a história onde o autor, com todo seu lirismo descreve o retorno do sentimento de autorreconhecimento, da identidade verídica advindos do entusiasmo.

 

Quantas vezes, depois daquele dia, em passeios para os lados de Guermantes, não me pareceu ainda mais angustioso que antes não ter qualquer inclinação para as letras e ser obrigado a renunciar de vez a tornar-me um escritor célebre? A mágoa que eu sentia, enquanto ficava a sonhar sozinho, um pouco distante dos outros, me fazia sofrer tanto que meu espírito, para não mais senti-la, por si mesmo, numa espécie de inibição diante da dor, deixava inteiramente de pensar nos versos, nos romances, em um futuro poético com o qual a minha falta de talento me proibia de contar.” 

 

Ele descreve bem como nos sentimos, pelo menos posso falar por mim, a respeito dessa sensação de lidar com o vazio da criatividade, da produção, das expressões. Mesmo que saibamos que o tempo resolve tudo, oferecemos, ingenuamente, uma taça de vinho para esse sentimento ficar e ali nos consumir.

 

 

Então bem longe de todas essas preocupações literárias e em nada a ela relativos, eis que de repente um telhado, um reflexo do sol sobre uma pedra, o cheiro de um caminho, faziam-me parar por um prazer especial que me davam, e também porque tinham o aspecto de quem guarda, além do que eu via, algo que me convidavam a vir pegar e que, apesar de meus esforços, eu não conseguia descobrir. Como eu sentisse que aquilo se encontrava neles, ficava ali, imóvel, a contemplar, a respirar, a tentar ir, como o pensamento, para além da imagem ou do aroma.

 

Ele continua se expressando que tais sentimentos ainda não lhe davam esperança de que um dia ele se tornasse escritor e poeta, e que sentia apenas um prazer, uma ilusão de uma espécie de fecundidade que o distraía do tédio, do sentimento de impotência a cada vez que se esforçava em escrever algo. E então chega um momento em que ele se sente entusiasmado com o que vê pelo caminho, de tal forma, que ele não se contém. Sua forma de enxergar poeticamente a vida e o seu redor nos deixam maravilhados com a essencialidade da poesia, do que ela proporciona com toda sua profundidade.

 

Uma vez, no entanto - quando nosso passeio se prolongara muito além da sua duração habitual… Numa volta da estrada, experimentei de súbito esse prazer especial que não me parecia idêntico a nenhum outro, ao perceber as duas torres de Martinville, sobre as quais batia o sol poente, e o movimento da nossa viatura e as curvas do caminho davam a impressão de mudá-las de lugar, e depois a torre de Vieuxvicq, a qual, separada delas por uma colina e um vale, e situada num plano mais elevado e longínquo, parecia bem próxima delas. …Em breve as suas linhas e suas superfícies ensolaradas, como se fossem uma espécie de casca, se romperam, e um pouco do que estava oculto nelas me apareceu, tive um pensamento que não existia para mim um momento antes, um pensamento que se formulou em palavras na minha cabeça, e o prazer que há poucos sentia ao vê-las aumentou consideravelmente, de modo que, tomado de uma espécie de embriaguez, não pude mais pensar em outra coisa. …Sem dizer a mim mesmo que aquilo que se ocultava detrás das torres de Mantinville devia ser algo semelhante a uma bela frase, pois que era principalmente sob a forma de palavras que me davam prazer, pedi lápis e papel ao doutor e, apesar dos ressaltos do carro, escrevi para aliviar a consciência e obedecer ao meu entusiasmo…"

 

E assim ele escreve uma paǵina sobre o que viu, com poesia e o talento que julgava nulos. Continuando, ele escreve um parágrafo maravilhoso.

 

Nunca mais voltei a pensar nessa página, mas naquele momento, quando, no canto da boleia onde o cocheiro do doutor colocava, de hábito, em um cesto, as aves que comprara no mercado de Martinville, terminei de escrevê-la, senti-me tão feliz, achava que ela me desentranhara tão perfeitamente aquelas torres e daquilo que elas escondiam atrás de si, que, como se eu próprio fosse uma galinha e acabasse de pôr um ovo, comecei a cantar a plenos pulmões.

 

 

Percebo que está tudo bem oscilar entre as emoções, mas o mergulho deve ser feito em paz, e com a consciência de que assim como as nuvens que deslizam pelo céu com o sopro dos ventos, esses sentimentos passam. Tudo é impermanente. Se reconhecer, se perceber como um bom profissional, artista, deve começar por dentro, e é somente nós mesmos que podemos nos enxergar e nos valorizar com todas as nossas abundâncias e carências. Minha história, nossa história, sua história, são pessoais e intransferíveis.

 

Em tempos superficiais e performáticos como os de hoje, do śeculo XXI, ler Marcel Proust pode ser uma tortura para alguns, infelizmente. Indico essa transformadora leitura para quem aprecia a profundidade. Se prepare para continuar a construir, através de reflexões, páginas adicionais repletas de aprendizados com temas deliciosos para longas conversas.